O Diário de Dorian Gray

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Name: Outras Historias

Esta é uma pergunta interessante que repasso aos meus amigos e àqueles que de certa forma me conhecem. Quem sou eu?

Saturday, April 29, 2006

O Diário de Dorian Gray

Os dedos calmos deslizavam sobre as folhas do livro. Estava um dia ameno. Sem muito sol ou mesmo calor em Londres. A cidade amanhecia em seu constante fog. Não havia conseguido dormir direito. As palavras daquele homem ainda ecoavam na mente de Dorian. “A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.” Ergueu os olhos negros daquelas paginas de papel papiro amarelados.. e os voltou para o objeto recoberto com o tussor de seda rubro carmim. Ali estava a verdade retratada. A verdade que Basil havia conseguido extrair da essência de Dorian. Ilustrada em um quadro que jamais teve coragem para olhar. Talvez porque aquele quadro refletia tal como um espelho suas íntimas verdades. Aquelas que um homem de bem e íntegro negaria a todo e qualquer custo. A verdade exibida mesmo através daquela expressão graciosa e bela que estava pintada na tela. A figura de um adônis de marfim e pétalas de rosas. A figura dele mesmo, Dorian Gray tal como era. E porque aquele quadro lhe causava tanto incômodo interior, se era uma obra tão bela e bem trabalhada? Talvez não fosse o quadro e sim as palavras de Basil que ainda ecoavam em sua mente.. Suspirou fundo fechando o livro e deixando-o sobre a mesinha de madeira escura ao lado da cadeira de leitura e ergueu-se caminhando até o objeto coberto. Deixando a ponta dos dedos alvos e delicados tocarem a superfície de madeira da moldura daquele quadro. Suspirou levemente, lembrando-se dos momentos em que fora modelo para aquilo. Baixou os olhos negros e os cabelos densos e negros como o abraçar da noite lhe caiam no rosto pálido. Puxou o relogio de bolso, pela correntinha dourada que pendia sobre o colete acinzentado do paletó. 20:00h e onde estava Basil? Que mania insuportavelmente indelicada de atrasar-se para todos os compromissos. Havia um baile na corte e Dorian era convidado de Lady Brandon. Haviam vantagens em pertencer a corte, mesmo que se insista em manter a casa com móveis velhos e ares sombrios como era a sua própria. Ainda assim havia um certo reconhecimento que sua figura trazia. E a própria companhia do nem tão educado Basil, que fazia questão de esquecer da pontualidade que lhe deveria ser caracteristica. Como era a todos os britânicos. Basil fazia apenas para irritá-lo, só poderia ser. Apenas pq Dorian presava a etiqueta. Era um baile e como todo baile sempre haviam lindas damas em vestes que lhes acentuavam os volumosos seios sob os vestidos, rendas e anáguas. Sorriu retirando os dedos de cima do tecido e guardando o relógio. Teria tempo.. tempo para começar a escrever suas memórias. Nem se lembrava desde quando havia decidido que tornaria registros suas memórias, aventuras ou devaneios. Na verdade talvez fosse a vontade de falar para alguém quando não desfrutava da companhia do pintor. Talvez fosse a necessidade de não depender tanto do querido amigo. E sim, de poder contar a algo, nem que fossem folhas de papel seus temores, ou mesmo desejos. Sim.. escreveria um diário. Um diário que o retratasse quase tão bem quanto esta maldita pintura que fazia questão de esconder de si mesmo no sótão. Deu as costas para o quadro e caminhou para a porta para sair do sótão. Descia as escadas calmamente, a calça num tom de cinza claro, tão bem talhada pelas mãos de Francian seu alfaiate lhe empregava um ar mais jovial, talvez pelas cores. Talvez pela moda do corte e caminhava pela sala até o escritório, sentando-se com calma à mesa. Puxava a pena, o papel papiro e suspirava de leve. Depois teria que dar um jeito de encadernar, mas isso faria com o tempo, quando as folhas começassem a se amontoar. Quando as historias corressem o risco de se confundir. Sorriu imaginando o que diriam se de repente por um acaso do destino seus escritos caíssem em mãos alheias. O que diriam as senhoras recatadas e seus trajes negros como as aves de mau agouro.. o que diriam os padres e seus conselhos de redenção? As jovens moças ele sabia: enrubeceriam mas apertariam as folhas entre os arfantes seios e os levariam para guardar abaixo dos travesseiros e ter sonhos e mais sonhos dos quais os anjos da guarda se envergonhariam. Os jovens rapazes menos tradicionais talvez o tomasse como herói ou ídolo.. exemplo a seguir. Os mais ortodoxos o chamariam de devasso.. Riu-se enquanto umidecia a pena na tinta negra e as letras bem desenhadas começavam a surgir naquela amarelada folha de papel. Seu diário seria um livro. E como diria Basil, Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.